Quando o barro começou a cantar: uma semana de imersão em Cunha

Em março de 2026, fui para Cunha, em São Paulo, para viver uma experiência que acabou sendo muito maior do que eu imaginava.

Cunha é conhecida por sua tradição cerâmica e, para quem trabalha com barro, estar ali já é uma experiência por si só. Mas o motivo que me levou até lá era bem específico: eu queria aprender a fazer vasijas silbadoras, ou vasos assobiadores, além de ocarinas e panelas de barro para fogo direto.

Essa vontade vinha crescendo há algum tempo.

Eu conheci o mestre ceramista José Augusto em 2024, quando participei de uma feira de cerâmica em Cunha. Desde então, continuei acompanhando o trabalho dele pelas redes sociais e sempre admirei muito sua pesquisa e a maneira generosa com que ele compartilhava seus conhecimentos.

Até que, em 2026, resolvi mandar uma mensagem.

Perguntei se seria possível fazer um intensivo de uma semana para aprender essas técnicas. E deu certo.

José Augusto conseguiu formar uma turma pequena, com apenas três alunos. Além de mim, estavam o Lucas e a Heloísa. Foi uma experiência muito boa justamente por sermos poucos. Tivemos tempo para acompanhar de perto cada etapa, perguntar, experimentar e errar.

E foi assim que começou uma semana inteira com as mãos no barro.

ceramica pre colombiana

Antes de fazer, entender

Começamos conversando sobre a cerâmica pré-colombiana e sobre os objetos que iríamos construir.

Eu estava especialmente interessada nas vasilhas silbadoras.

Elas são esculturas que produzem som através de um sistema em que o ar e a água participam do funcionamento da peça. Para mim, isso era fascinante. Eu estava acostumada a pensar a cerâmica principalmente pela forma, pela superfície, pelo toque e pelo fogo. Ali, o barro começava a ganhar outra dimensão: ele também podia cantar.

Começamos pela base da vasilha e, aos poucos, fomos entendendo como cada parte precisava se relacionar com a outra.

Também aprendemos a fazer os apitos que seriam usados dentro das peças. Era um momento muito gostoso porque, de repente, começava a sair som de um pequeno pedaço de barro que poucos minutos antes era apenas uma bolinha de argila.

E quando o som aparecia, todo mundo comemorava.

Era simples e mágico ao mesmo tempo.

Uma bola de barro pode virar quase tudo

Uma das coisas que mais me encantou durante a semana foi perceber como era possível construir tanta coisa usando pouquíssimas ferramentas.

Para abrir as placas, por exemplo, aprendemos uma técnica que parte de uma simples bola de argila. A partir dela, o barro vai sendo aberto e transformado.

Para fazer a panela de fogo direto, usamos essa mesma lógica.

E foi aí que aconteceu uma das cenas mais engraçadas da semana: fizemos a base da panela na cabeça.

Sim, na cabeça.

Vou colocar a foto aqui porque é muito melhor ver do que explicar hehe

A partir dessa base, fomos construindo as paredes da panela. Fazíamos grandes “cobrinhas” de argila e íamos subindo a peça, fazendo as junções e criando as ranhuras necessárias para que uma parte se unisse à outra.

Também fizemos a tampa usando a mesma técnica.

O mais interessante é que não havia uma quantidade enorme de ferramentas sofisticadas. Usávamos coisas muito simples: garfo, colher, faca, um recipiente com água e as próprias mãos.

Aquilo ficou muito forte para mim.

Hoje, quando pensamos em cerâmica, existe uma infinidade de ferramentas, equipamentos e possibilidades. E ali eu estava percebendo que, com muito pouco, existe um conhecimento enorme.

Era o barro, as mãos, algumas ferramentas simples e o conhecimento de como fazer.

Isso me encantou.

Construir, esperar, voltar

A semana também foi feita de espera.

Não dava para fazer tudo de uma vez. Algumas partes precisavam secar um pouco para ganhar firmeza antes de continuarmos.

Então fazíamos uma peça, deixávamos descansar e voltávamos para outra.

Enquanto a panela secava, continuávamos trabalhando nas vasilhas silbadoras. Construíamos os mecanismos internos, os tubos que ligavam uma câmara à outra, os apitos e as pequenas partes que fariam a peça funcionar.

Também fizemos ocarinas.

Eu fui criando minhas próprias formas aos poucos.

Na vasilha silbadora, decidi fazer uma cobra. Acho que foi uma maneira de colocar um pouco de mim naquela peça. Eu estava gostando muito da experiência, mas também estava insegura. Era uma técnica nova, havia muitas coisas para entender e eu queria que desse certo.

Mesmo assim, resolvi experimentar.

Também fiz um passarinho com a ocarina.

E, aos poucos, aquelas bolas, placas, tubos e pequenos apitos começaram a se transformar em esculturas.

Ocarina em formato de pássaro

O tempo do brunimento

Depois que as peças estavam construídas, veio uma das etapas mais demoradas: o brunimento.

É um trabalho muito minucioso. A argila precisa estar em um ponto específico e o processo exige paciência.

Passamos quase um dia inteiro — na verdade, cerca de um dia e meio — brunindo as peças.

É aquele tipo de trabalho que faz você desacelerar.

Você fica ali, repetindo o gesto, passando a pedra sobre a superfície, observando a mudança que acontece aos poucos.

E enquanto fazíamos isso, a queima já estava sendo preparada.

Um forno de carvão

Na sexta-feira, penúltimo dia do intensivo, montamos um pequeno forno de carvão.

Era uma estrutura simples, feita com tijolos, uma grelha, carvão e velas.

Colocamos algumas peças pequenas para experimentar a queima, entre elas cumbucas e apitos.

E então começou o fogo.

Fiquei muito impressionada em pensar que aquelas peças, feitas com as mãos e com ferramentas tão simples, estavam passando por uma transformação tão grande em um forno tão simples de ser feito.

A argila estava deixando de ser argila.

O fogo estava transformando tudo.

A queima foi acompanhada de perto e deixamos as peças ali durante a sexta-feira.

A cera de abelha

No sábado, voltamos para retirar as peças.

E ainda havia mais uma etapa.

José Augusto nos mostrou como impermeabilizar as peças utilizando cera de abelha. As peças são aquecidas novamente e a cera também é aquecida. Depois, com um pano separado para esse uso, ela é aplicada várias vezes sobre a superfície quente.

Aos poucos, a cera vai penetrando na peça.

Quando começa a ficar esbranquiçada, sabemos que está chegando ao ponto.

Foi mais uma daquelas coisas que parecem simples quando alguém explica, mas que carregam todo um conhecimento de processo.

Voltei para casa com muito mais do que peças

Eu fui para Cunha querendo aprender uma técnica.

Voltei com uma pesquisa muito maior dentro de mim.

A experiência me fez pensar muito sobre a relação entre barro, água, fogo, som e memória.

Também fiquei pensando em como os saberes podem atravessar o tempo. Em como uma técnica pode continuar viva quando alguém decide aprender, praticar e transmitir.

E talvez o mais bonito tenha acontecido na volta.

No ônibus, olhando a paisagem pela janela, comecei a pensar em tudo o que tinha vivido naquela semana.

A paisagem passando, a terra, a vegetação, a água, o fogo, as peças que eu tinha acabado de fazer…

Foi ali, naquele caminho de volta, que comecei a ter as primeiras ideias do que viria a se tornar o projeto “Guardiãs: o que a terra guarda”.

A experiência em Cunha me fez pensar nas forças da natureza como algo que também pode ser guardado dentro do barro.

E foi assim que as ideias começaram a se juntar.

As vasilhas silbadoras, que precisam da água para cantar.
O fogo, que transforma a matéria.
A terra, que guarda histórias.
O território, que carrega memórias.
E a possibilidade de criar esculturas que não apenas representassem a natureza, mas que de alguma maneira dessem voz a ela.

Talvez eu tenha ido para Cunha para aprender a fazer o barro cantar.

Mas voltei pensando em o que a terra teria para me contar.

E ela cantou para mim 🙂 Assista ao vídeo e aproveite o som!

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Nos vemos no próximo post!

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